Militando pela democratização da segurança pública, como condição para a democratização da democracia no Brasil, sempre sonhei com o dia em que essa bandeira seria dos policiais, dos que estão nas ruas carregando o piano, prevenindo, investigando, mediando, evitando a judicialização precoce, garantindo direitos, impedindo sua violação com equidade, tornando prática concreta a ideia de que justiça tem de valer para todos, sem distinções, sem racismo, tornando real o valor da universalidade do bem público: segurança. Pois aí está. O sonho começa a se realizar. Os policiais pela democracia, os policiais e as policiais pela desmilitarização, os policiais como protagonistas da luta pelo ciclo completo e a carreira única, e tantas outras mudanças inadiáveis. Basta de criminalizar a pobreza e os movimentos sociais. Chega de prender jovens negros e pobres. Chega de condenar uma instituição com milhares de profissionais a um regime disciplinar inconstitucional, proibindo-a de investigar, obrigando-a a confundir eficiência com encarceramento por flagrante, aplicando seletivamente as leis, escolhendo os jovens vulneráveis em territórios estigmatizados. Os policiais começam a assumir seu lugar na história do país, mobilizando-se pela refundação das polícias, pela transformação profunda da arquiettura institucional da segurança pública, perverso legado da ditadura plantado no coração da Constituição cidadã. Os e as policiais saem do armário empoeirado da ditadura para se manifestar, organizar-se em sindicatos, fazer-se ouvir. Querem mais responsabilidade, autonomia e respeito para respeitar e honrar suas responsabilidades. Não querem ser apenas robôs que cumprem ordens do comando. Desejam pensar e ser valorizados, inclusive por salários dignos. Não querem mais matar seus irmãos nas favelas e periferias para atender ordens de governantes comprometidos com a reprodução das desigualdades sociais. Não querem ser instrumentos do genocídio fratricida. Exigem seus direitos e pretendem superar o preconceito absurdo de suas categorias profissionais contra os princípios que expressam os valores mais próximos a suas raízes e seus interesses: os direitos humanos. Por tudo isso, os policiais saem das tocas, dos batalhões, das delegacias, saem da velha ordem ditatorial mal camuflada pela retórica dos bacharéis e pelas surradas hierarquias, ganham as ruas, as redes sociais, se juntam ao Brasil que protesta e erguem bem alto a bandeira da PEC-51 –a PEC da paz, como eles mesmos a chamam. Bem vindos ao sol do novo mundo, parceiros de travessia.
- LUIZ EDUARDO SOARES formou-se em Literatura, na PUC-RJ, e construiu sua carreira combinando produção literária e dramatúrgica com docência, obras acadêmicas e gestão pública. Escreveu, com Domingos de Oliveira e Márcia Zanelato, a peça Confronto e a adaptação para o teatro de seu livro, Tudo ou Nada, que será encenada no começo de 2013, com direção de Marcus Faustini. É mestre em Antropologia, doutor em ciência política com pós-doutorado em filosofia política. Foi secretário nacional de segurança pública (2003) e coordenador de segurança, justiça e cidadania do Estado do RJ (1999/março 2000). Colaborou com o governo municipal de Porto Alegre, de março a dezembro de 2001, como consultor responsável pela formulação de uma política municipal de segurança. De 2007 a 2009, foi secretário municipal de valorização da vida e prevenção da violência de Nova Iguaçu (RJ). Em 2000, foi pesquisador visitante do Vera Institute of Justice de Nova York e da Columbia University.Tem vinte livros publicados, entre eles o romance Experimento de Avelar, premiado pela Associação de Críticos Brasileiros em 1996, e Meu Casaco de General, finalista do Prêmio Jabuti em 2000. Foi professor da UNICAMP e do IUPERJ, além de visiting scholar em Harvard, University of Virginia, University of Pittsburgh e Columbia University. É professor da UERJ e coordena o curso à distância de gestão e políticas em segurança pública, na Universidade Estácio de Sá.
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